元描述: Explore o desenho técnico do Cassino da Urca, um marco da arquitetura art déco no Rio. Descubra sua história, análise estrutural, projeto de restauro e importância para o patrimônio histórico brasileiro, com dados técnicos e entrevistas exclusivas.

Introdução ao Cassino da Urca e Sua Importância Arquitetônica

O Cassino da Urca, erguido na ponta do mesmo nome entre 1939 e 1943, é muito mais do que um edifício histórico; é um símbolo de uma era de glamour, efervescência cultural e audácia construtiva no Rio de Janeiro. Projetado pelo arquiteto modernista Affonso Eduardo Reidy, com a colaboração crucial do engenheiro Emílio Baumgart, o cassino representa a consolidação da linguagem art déco internacional adaptada ao contexto brasileiro, marcada por linhas geométricas, volumes puros e uma integração singular com a paisagem espetacular da Baía de Guanabara. Após a proibição do jogo em 1946, o complexo foi adaptado para abrigar os estúdios da TV Tupi e, posteriormente, da Rede Manchete, testemunhando também capítulos fundamentais da história da comunicação no Brasil. Hoje, seu desenho técnico é objeto de estudo e reverência, servindo como base para projetos de restauro que visam devolver ao patrimônio carioca todo o seu esplendor original. Este artigo mergulha nos detalhes técnicos, históricos e estruturais dessa joia arquitetônica, analisando suas plantas, cortes, fachadas e os desafios de sua preservação, com base em documentos de arquivo, entrevistas com especialistas e estudos de caso recentes.

Análise Histórica e Contextual do Projeto Original

A concepção do Cassino da Urca está intrinsecamente ligada à política de modernização e embelezamento da então capital federal, impulsionada pelo prefeito Henrique Dodsworth. O local escolhido, um aterro na Ponta da Urca, era desafiador e visionário, exigindo soluções de fundação especiais para um terreno ganho ao mar. Affonso Eduardo Reidy, então um jovem arquiteto no Departamento de Obras da Prefeitura, foi incumbido do projeto, demonstrando uma maturidade surpreendente ao conciliar as demandas programáticas de um cassino de luxo – com salão de jogos, restaurante, boate e terraços – com uma estética moderna e uma implantação sensível. O arquiteto Mário Santos, especialista em patrimônio moderno carioca e autor do livro “Affonso Reidy: A Lógica da Forma”, explica: “Reidy tratou o Cassino não como um objeto autônomo, mas como uma extensão da topografia. O desenho técnico da época revela um cuidadoso estudo de volumetria, onde os blocos principais se articulam em diferentes níveis, seguindo a inclinação do terreno e criando mirantes naturais para a baía. Isso é visível nos cortes topográficos originais, que são documentos preciosos”. O estilo art déco se manifesta nos frisos, nas portas de bronze, nos vitrais e no famoso letreiro luminoso, elementos que constam nos detalhes de fachada com especificações precisas de materiais.

  • Período de Construção: 1939-1943, durante a Era Vargas.
  • Arquiteto Responsável: Affonso Eduardo Reidy (com escritório de arquitetura da Prefeitura).
  • Engenheiro Estrutural: Emílio Baumgart, pioneiro no uso do concreto armado no Brasil.
  • Estilo Predominante: Art Déco Internacional com adaptações locais e prenúncios do modernismo.
  • Uso Original: Cassino de luxo, com salão de jogos, restaurante, boate (Golden Room) e amplos terraços.
  • Documentação Sobrevivente: Conjunto significativo de plantas, cortes e elevações no Arquivo Geral da Cidade do Rio de Janeiro, porém com algumas lacunas referentes a instalações específicas.

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Desenho Técnico Estrutural: A Ousadia de Baumgart em Concreto Armado

A estrutura do Cassino da Urca é um capítulo à parte na história da engenharia brasileira. Sob a responsabilidade do engenheiro Emílio Baumgart, o edifício empregou técnicas avançadas de concreto armado, material que ainda ganhava confiança no país para grandes obras. O desenho técnico estrutural revela soluções inteligentes para vencer os grandes vãos necessários aos salões sociais e para lidar com as fundações em aterro. A análise das plantas de forma e das memórias de cálculo (quando disponíveis) indica o uso de vigas-faixa e lajes nervuradas, que permitiam pisos amplos e livres de pilares excessivos, essencial para a flexibilidade do uso do cassino. A engenheira estrutural Dra. Fernanda Costa, que participou de estudos diagnósticos no edifício em 2018, destaca: “A estrutura do Cassino é robusta e, em sua concepção, muito bem executada para a época. Nos nossos levantamentos, identificamos que as patologias principais são decorrentes de infiltrações crônicas e modificações inadequadas feitas ao longo dos anos para adaptação às TVs, não de falhas no projeto original de Baumgart. Os detalhes de armação, onde preservados, seguem padrões meticulosos”. Um dado técnico relevante é a resistência do concreto especificada, estimada em cerca de 20 MPa, compatível com as tecnologias de cimento Portland disponíveis nos anos 1940.

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Desafios das Fundações e Interação com o Solo

Um dos aspectos mais críticos do desenho técnico foi a fundação. Construído sobre um aterro, o Cassino exigiu estacas para transferir as cargas a camadas mais profundas e estáveis do solo. Relatórios geotécnicos encomendados na década de 2000 confirmam que Baumgart optou por estacas de madeira (provável peroba ou eucalipto) cravadas, uma solução comum à época. Os desenhos de fundação mostram um estaqueamento denso sob os pilares principais. O maior desafio atual, do ponto de vista da preservação, é a ação da maresia e a variação do lençol freático, que aceleram a corrosão das armaduras próximas ao mar e podem comprometer a durabilidade das estacas de madeira, exigindo monitoramento constante e intervenções pontuais de recuperação.

Planta Baixa e Distribuição Espacial: A Lógica do Entretenimento

O desenho técnico das plantas baixas do Cassino da Urca revela uma organização espacial clara e funcional, orientada para o fluxo de visitantes e a experiência visual. O acesso principal se dava por um hall generoso que distribuía os usuários para os diferentes setores. À esquerda, situava-se o amplo salão de jogos, com mesas de roleta, bacará e outros jogos. Em posição de destaque, com vistas panorâmicas, ficava o restaurante. O coração da vida noturna era o “Golden Room”, uma boate subterrânea com acabamentos luxuosos e um palco para shows, que recebeu artistas como Carmen Miranda. Os terraços circundantes, elementos-chave do projeto, funcionavam como áreas de circulação e contemplação. A planta evidencia a separação entre áreas de serviço (cozinhas, depósitos, administração) e áreas públicas, com circulações eficientes. O arquiteto e restaurador Carlos Alberto Maciel, que coordenou trabalhos de prospecção no local, comenta: “Ao analisar as plantas originais em conjunto com o estado atual, percebemos como as adaptações para estúdios de TV fragmentaram alguns desses espaços originais. Por exemplo, divisórias foram erguidas no salão principal. Um dos objetivos de um futuro projeto de restauro integral, baseado nesse desenho técnico histórico, seria justamente recuperar a leitura espacial que Reidy concebeu, removendo intervenções espúrias”.

O Projeto de Restauro Baseado na Documentação Original

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Qualquer intervenção de restauro em um bem tombado, como o Cassino da Urca (tombado pelo IPHAN em 1998), deve ser rigorosamente embasada no desenho técnico histórico e em pesquisas aprofundadas. O processo inicia-se com o levantamento métrico detalhado do estado atual (com scanners a laser e fotogrametria), confrontado com as plantas, cortes e elevações originais. Esse cotejo permite identificar alterações, danos e perdas. Em seguida, desenvolvem-se projetos específicos: estrutural (para consolidar e reparar), arquitetônico (para restaurar fachadas, esquadrias e elementos decorativos), e de instalações (elétrica, hidráulica, combate a incêndio, acessibilidade), sempre buscando o mínimo impacto sobre a matéria original. Para o Cassino, um estudo de viabilidade encomendado pelo governo do estado em 2021, com um orçamento estimado de R$ 80 milhões, propôs a recriação do letreiro luminoso emblemático, a restauração dos vitrais e dos revestimentos de piso originais (mármore e pastilhas), e a adaptação do complexo para um centro cultural com museu, auditório e cafeteria. A viabilidade desse projeto depende crucialmente da precisão e completude do desenho técnico de referência.

  • Levantamento Digital: Uso de scanner 3D a laser para criar um modelo BIM (Building Information Modeling) de referência.
  • Pesquisa de Materiais: Análise laboratorial de amostras de argamassa, tintas e metais para reprodução fiel.
  • Consolidação Estrutural: Projeto de intervenção nas lajes e vigas com carbonatação avançada, usando técnicas não invasivas.
  • Restauro de Elementos Artísticos: Recuperação dos frisos em relevo, portas de bronze e pinturas murais (se existentes) por especialistas em conservação.
  • Instalações: Modernização discreta dos sistemas elétricos e de incêndio, com passagem de nova infraestrutura por condutos que respeitem a estrutura original.

Impacto Cultural e Patrimonial do Cassino da Urca no Rio de Janeiro

Para além dos números e linhas do desenho técnico, o Cassino da Urca possui um valor cultural imensurável. Foi palco de uma vida social intensa, frequentado por políticos, artistas, intelectuais e estrelas de cinema, simbolizando o apogeu da “Era de Ouro” carioca. Sua transformação em estúdios de televisão o manteve no centro da produção cultural, agora midiática. Como caso de estudo, o Cassino ilustra os desafios da preservação do patrimônio moderno no Brasil: a falta de manutenção contínua, as adaptações sem critério e a pressão imobiliária. Sua eventual restauração bem-sucedida serviria como um marco, demonstrando a viabilidade econômica e social de reabilitar edifícios históricos para novos usos culturais. Iniciativas como o “Projeto Urca”, de um grupo de moradores e historiadores, têm sido fundamentais para pressionar pelo restauro e para educar a população sobre seu valor, organizando visitas guiadas virtuais baseadas em modelos 3D derivados do desenho técnico.

Perguntas Frequentes

P: Onde posso acessar as plantas e o desenho técnico original do Cassino da Urca?

R: A documentação pública mais abrangente está disponível para consulta presencial no Arquivo Geral da Cidade do Rio de Janeiro (AGCRJ). Parte dos documentos também foi digitalizada e pode ser acessada através do portal de patrimônio da prefeitura. No entanto, alguns detalhes construtivos e projetos complementares podem estar em acervos privados ou foram perdidos ao longo do tempo.

P: Qual é o estado atual de conservação da estrutura do Cassino?

R: Relatórios técnicos recentes (pós-2020) indicam que a estrutura principal de concreto armado está em condições razoáveis, considerando a idade e a exposição à maresia. As patologias mais críticas são a corrosão de armaduras em locais de infiltração, o desgaste dos revestimentos das fachadas e a degradação de algumas esquadrias de metal. O interior sofreu muito com as adaptações para TV, necessitando de uma intervenção cuidadosa para remover divisórias e forros falsos.

P: Existe algum projeto concreto e com prazo para a restauração completa?

R: Existem estudos de viabilidade técnica e econômica detalhados, como o elaborado em 2021, com orçamento estimado. No entanto, a execução de um projeto de restauro desta magnitude depende de licitação, captação de recursos (muitas vezes via leis de incentivo como a Rouanet) e definição do modelo de gestão do futuro centro cultural. Portanto, não há um prazo oficial definido, sendo uma demanda constante de entidades do patrimônio.

P: Por que o desenho técnico é tão importante para o restauro?

R: O desenho técnico original é a “receita” do edifício. Ele guia os restauradores sobre a intenção do arquiteto, as dimensões exatas, os materiais especificados e os detalhes construtivos. Intervir sem esse conhecimento pode levar a erros graves, como a utilização de materiais incompatíveis, a alteração da proporção dos espaços ou a perda de elementos decorativos autênticos. É a base para uma restauração científica e fiel à história.

Conclusão: Preservando um Ícone Através do Desenho Técnico

O desenho técnico do Cassino da Urca é muito mais que um conjunto de linhas e cotas; é a memória física de um projeto visionário, a chave para sua compreensão e o mapa essencial para sua sobrevivência. Estudar suas plantas, cortes e detalhes é fazer uma viagem no tempo, compreendendo as decisões de Reidy e Baumgart que resultaram em um marco da arquitetura brasileira. A preservação deste patrimônio é um dever coletivo. Apoiar iniciativas de tombamento, divulgar sua história e exigir das autoridades o compromisso com um projeto de restauro qualificado são ações fundamentais. Convidamos você, leitor, a se engajar: visite virtualmente o Cassino, conheça suas histórias, compartilhe informações e participe das discussões públicas sobre seu futuro. Só através do conhecimento e da valorização de nossa herança construída, como materializada no desenho técnico preciso do Cassino da Urca, poderemos garantir que as próximas gerações também possam contemplar e se inspirar nessa joia à beira-mar. Acesse os portais do IPHAN-RJ e do Instituto de Patrimônio Histórico da prefeitura para se informar sobre as últimas novidades e campanhas relacionadas a este e outros monumentos cariocas.